budismo, antropofagia, dharma, devir, pensamento fronteiriço, outras gnosiologias, cultura contemporânea e meditação.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
[rastreando]
"mas allá de los más establecidos modos de escritura académica - ¿los cuales están necesariamente intrincados con praticas logocêntricas? - ¿puede uno escribir diferentemente sobre los sujetos cuyas perspectivas no-eurocentricas uno espera contribuir a desvelar? ¿ y cómo ponemos nuestros escritos en circulación en esos espacios donde la diferencia colonial está siendo re-trabajada cotidianamente a través práticas sociales?" (Arturo Escobar: "Mundos y conocimientos de otro modo", in. Tabula Rasa. n. 1: 51-86. enero-deciembre de 2003. Bogotá).
quarta-feira, 24 de junho de 2009
sentir o ritmo da brisa, violá-la
ao Mario, pelas helicoidais palavras
Seres imagináveis do instante já-é, a 4ª. dimensão ou o cenátimo. A serpente devora a própria cauda – a voz saúda lê-lê malê Oxumarê. A voz... ah... a África de vozes, movimentos, ritmos, ruídos e vozes. A voz de Hapatê Bâ – já escrita – perpetua o movimento e do duelo com a linguagem desponta uma fagulha... clarão... um ritmo, uma cadência, uma respiração.
Li um artigo do professor de literatura da USP, José Castello, “Borges entre os volúveis”, no Prosa & Verso, suplemento cultural do Jornal O Globo. Da leitura ficam figuras míticas. Proteu, deus egípcio da diferença, “o já diferente”, o já outro. Banshee, da mitologia celta vive oculto nas montanhas escocesas, é antes um gemido que uma forma. E esse gemido é o dos estertores.
Fui arrancado ou chutado da cama nesta manhã. Aturdido, demorei em recobrar os sentidos. Olhei no espelho. O objeto refletido – inexoravelmente refletido – pinta nossos traços e contornos com pincéis ora impressionistas, ora surrealistas ou, expressionistas. Guarda um rosto. Um rosto já outro, não nosso. Quando nos colocamos defronte, com pinceladas irônicas, nos rasura. Esse rosto já outro – o reflexo errático. O espelho de Proteu é ardiloso. Emite um gemido, o som do estertor de Banshee. Não há garantias, só informes e deformações. Nessa manhã, insisti em encarar minha silueta no espelho, queria assegurar-me de que estava ali, torto, mas ali. Sim, meu rosto estava ali, mesmo que fosse um já outro rosto.
Retorno a Hampatê Bâ, escritor das savanas e desertos de África. O rosto já outro de Proteu não fala, não sussurra algo inteligível, ele apenas geme. Reflete a imprecisão estranha. Na agrafia africana esses gemidos de Banshee anunciam a vida também. Interrompe – viola – o silêncio com seus ruídos mágicos: a palavra tem axé. O corpo do conhecimento geme e dança em acrobáticos rodopios. “A tradição oral é a grande escola da vida” (Hampatê Bâ, 2008, p. 183).
A fala africana tem um dom: germina vida. A fala é força, agride o inefável ao duelar com ele. Do embate insurge a centelha criativa – o ato de nomear! – Os olhos, o nariz e os ouvidos falam, a boca escuta e a mão fareja. Maa é homem na tradição bambara. Maa Ngala é o sopro supremo. Maa está nas duas palavras, pois os homens herdaram, do deus supremo, o poder da criação. Maa cria o mundo através da palavra falada, cantada, dançada e ritualizada. Foi Ngala, todavia, que ensinou-nos a sinestesia: ver com os ouvidos e escutar com os olhos. Foi Maa Ngala que soprou nosso corpo já outro.
A magia lança interrupções, intervenções no espaço-tempo. Assombrou e assombra as mentes habituadas às explicações. No mundo africano, no entanto, a magia é vivida habitualmente. A fala é o “agente ativo da magia”. A palavra conserva e destrói, ininterruptamente, sem sintetizar ou reduzir à unidade. A palavra é conservação e destruição. Um gemido de Banshee e um sopro de Maa Ngala. A palavra já é outra.
Já sou outro no espelho de Proteu e Banshee. Ele não fala, porém geme. Aquele outro rosto tem o dom divino da criação? De quem é esse rosto de outrem? É o mesmo que perguntar: de quem é o rosto para quem escrevo? Quem é outrem que lê? Ou quem é outrem da escrituração? Mexo, por certo, os músculos da mão, do corpo em posição desconfortável – inerte? Como seria uma ioga da escrita? – Mas, quem habita o corpo da escrituração? Vozes-corpos? Sons conformados numa língua – palavras e frases – insurgindo no corpo do conhecimento até que ele, enfim, escreve?
Nos rastros das outras culturas que escapam ao ocidente da colonialidade / modernidade se dá o embate antropofágico. Violência e violação de cosmologias múltiplas. Como única saída o corpo do conhecimento da descolonialidade escrevive. O corpo in(ex)surge na escrituração. Rasura o mundo pra ser rasurado. Gera perspectivas. Ações pelas quais “o ser humano se apodera violentamente de um certo número de coisas, reage a um certo número de situações, lhes impõe relações de força” (Foucault, 1979, p. 19). Rasura Maa Ngala, o sopro da criação bambara. Transgride a mudez, aquela que convive com o sujeito da linguagem e do conhecimento. Intante já outro – Proteu. A escrita assassina. A palavra já outra, pelo menos por hora, fixou-se na escrita. Agora, cabe ao texto permitir a leitura, nos garante Barthes. A leitura – ou a rasura da rasura – agüenta o já outro rosto de Proteu ou o gemido de Banshee. O ruído de Banshee desvia o rosto de outrem de outro espelho e transtorna-se em já outro Proteu. E Maa Ngala sopra n’ouvido do escritor.
Foucault, Michel: A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Ed. , 1979.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
escrita alegórica ou escrita em transe
Depois de uma conversa com a ilha do mar sem fim, Marília Rothier Cardoso, li mais uma entrevista do Eduardo Viveiros de Castro (da série Encontros, da editora Azougue). Fiquei com uma "fuga atrás d'orelha" (Artur Omar). Marília trabalha com a noção de "escrita alegórica": uma literatura que constrói o conhecimento através da alegoria - emblemas -, isto é, uma (des)construção da linguagem que tensiona os signos, devorando-os e juntando distintos fragmentos de lugares de enunciação variados. Esta linguagem alegórica aglutina - violenta - o pensamento abstrato-conceitual e o pensamento concreto-sensorial (Levi-Strauss: Pensamento Selvagem). O texto fragmentado e ensaístico-literário são os espaços privilegiados pra essa escrita. Tal qual a opção benjaminiana, em Haxixe, pela escrita autoral e ficcional - a única possível. Um outro exemplo, seria a escrita caótica e extasiante de Glauber Rocha, em especial nos nas versões arquivadas de seus textos, onde as marcas do autor, de suas leituras, de suas rasuras e desvios violentam a página escrita. Um hipertexto glauberiano?
O que fica registrado, tanto em Benjamin quanto em Glauber Rocha é a "sobrevida da escrita" (o conceito é de Benjamin): uma profusão de (re)textos traduzidos e criticados. São experiências anotadas em transe, auxiliadas pela droga, no caso do primeiro e leituras, observações e resignificações do texto escrito, no segundo caso. De uma forma ou de outra, há uma manipulação - apropriação - mágica da realidade (por magia entendo uma transformção espaço-temporal). Ambos estão transtornando as formas (pré)estabelecidas dos espaço-tempo ao lançar-nos num "espaço e tempo desmedidos", como enuncia o filósofo alemão. Benjamin devém etíope e não controla seu corpo que dança seguindo o ritmo do jazz de Marselha. Glauber, escrevendo nu, nos lança numa profusão de idéias, palavras dançando e nos remetendo a uma teia rizomática de conceitos e pensamentos dispersos. Isto me faz pensar que há um outro corpo que enuncia esse pensamento alegórico - não ocidental. O corpo negro-jazz de Benjamin e o corpo caboclo-nu de Glauber Rocha.
Ambos estão escrevendo com outros - vozes-corpos coletivas - são vários que escrevivem na cadência do texto assinado por eles. Assina-se por prática formal - sobrevivência - porém escreve-se com outros, o corpo que bate à máquina ou anota é já-outro. É o etíope Benjamin e o caboclo Glauber. Escrevivem em transe, isto é, devindo outro, sem que a metamorfose se complete, afinal de contas, é preciso assinar o texto, há encargos e uma vida a sustentar - uma sobrevivida ou sobrevivência da escrita? Ser-outro através da experiência da escrita, assim como Bernardo Carvalho conjura o espectro de seu avô Rondon ao ficcionalizar a experiência do antropólogo que se suicidou no meio dos índios no início do século (em Nove Noites). Um delírio - rigoroso - da linguagem para ver emergir outros lugares d'enuciação. Um transe que abre o corpo para os caboclos - os donos da terra brasileira - permitindo linhas de fuga da captura corporal do Estado com seus rigores coercitivos. Escrever com os caboclos ou melhor ser um caboclo em transe no terreiro da página ou tela do computador.
Daê coexistirem os pensamentos, os informes coletivos e criar uma Zona Autônoma Temporária (TAZ), como quer Hakim Bey. Benjamin etíope e jazz man antropofagiou a periferia ritmica d'Europa e, ao menos no texto abriu "um tempo espaço desmedido", um TAZ. Glauburu (como assinava seus textos), entrou ou foi deslocado no corpo do caboclo Buru, abrindo pros gestos e pra nudez : "O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará." (in.: Manifesto Antropófago). Um TAZ nu, escancarando o corpo, permeando - contaminando - os mundos, sem definições (pré)estabelecidas.
Creio ser este o movimento alegórico ou em transe. O êxtase da forma, o delírio rigoroso da autoridade que já num cabe mais, que é já-outro. Os fragmentos avolumam-se nos pensamentos sem fronteiras. Não há cercas na imaginação, essa Zona Autônoma Temporária, até que alguém ou uma corporação patentie um conceito, um modo de operação conceitual. Para a descolonialidade do pensamento é preciso abrir a roda, tocá e saudá os caboclos Burus e Benjamins Jazz-Marselhas. Deixá-los s'enunciá, cantá, batucá e dança sua música de chegada. Desfilá seu tum-tum, sua cosmologia d'outros logos e d'outras Aruandas.. Com-torcê corpos e tecidos esfarrapados, puidos, puxá-los.. É já-outro texto esse que s'enuncia nessas linhas.. já devindo conversas e batuques de samba de côco, de boi yayá, de laroiês, de juremas, de nanã-giês..